terça-feira, 11 de maio de 2010

Bye, bye España! Hello London!!

Pequena introdução

Foram 11 meses de estadia na Espanha. Apesar de eu sempre arredondar para um ano, foram na verdade 11 meses. Eu nunca tinha saído do Brasil e, de repente, entrei num avião para Espanha e só saí de lá 11 meses depois. Os primeiros seis meses vocês acompanharam pelo blog e os últimos 5 foram mais ou menos uma repetição dos primeiros, com a diferença que eu já falava espanhol de verdade.

Essa introdução foi só para lembrá-los de que a minha situação não é simplesmente a de uma brasileira que vem morar em Londres. Eu passei tanto tempo na Espanha que ouso dizer que parte daquela cultura e do modo de viver espanhol foi absorvido pelo meu próprio modo de viver e agora eu também tenho uma porcentagem espanhola dentro de mim, bem pequena, também tenho que admitir, mas ela tá lá, me fazendo ver o Reino Unido com olhos um pouco mais europeus do que latino americanos.


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O Reencontro

Vir morar em Londres teve mais ou menos o mesmo impacto que teve sair de Petrópolis e ir viver no Rio. Eu tava lá na Espanha, numa cidadezinha pequena, pacata, onde o todo mundo se conhece e o tempo não passa e, GRAÇAS AOS CÉUS, eu fui arrebatada(como diriam os evangélicos) e trazida para cá. É como se eu estivesse de volta ao Rio, reencontrei as multidões, reencontrei a diversidade de pessoas, comércio e possibilidades.

Lógico que aqui é um Rio de Janeiro carente do melhor, que são vocês meus amados amigos. Mas, inclusive com relação a amigos, minha vinda para cá foi um grande reencontro. Afinal, o Phil e eu, a dupla inseparável, estava ironicamente separada há meses e foi aqui em Londres que passamos a dividir a mesma casa novamente. Até o Júlio Molica, colega de faculdade, eu reencontrei, por acaso, passeando por uma rua em Camden Town, aquele bairro famoso, não porque lá mora a Amy, mas porque foi o primeiro lugar onde trabalhei aqui.

Parágrafo novo para anunciar aquilo que mais me deixou feliz ao chegar: depois de sete anos, finalmente reencontrei minha amiga Angel. Ela era como uma irmã perdida no universo e agora tenho ela aqui pertinho, morando na mesma cidade novamente.

Farras à parte, sabe o que eu tenho de volta? Uma vida laboral. Eu tenho emprego, dinheiro no fim do mês (na verdade aqui, no fim da semana), contas para pagar e até colegas de trabalho!! A vida não é incrível?!

E para fechar em grande estilo, em Londres eu tenho de volta nosso delicioso blog e vocês, amados leitores que com muito interesse continuam acompanhando nossa vida longe do Brasil e, por isso, merecem mais um diálogo:

Phil: Boa idéia essa de sempre colocarmos um diálogo no fim dos posts.

Mina: É, mas também um pouco difícil. A gente não fica por aí, falando coisas engraçadas e sendo interessante o tempo inteiro.

Phil: ah! Mas aí a gente inventa!!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Back for good

Foram meses e meses de um hiato que parecia sem fim nesse espaço tão carinhosamente criado para abrigar as aventuras de Mina e Phil em busca da conquista do mundo através do Velho Continente. Mas agora que estamos reunidos novamente, com a força da dupla e inspirados pelo vulcão da Islândia que também voltou à ativa, este blog volta a ser nosso espaço para que todos nos acompanhem.

Com a chegada da Mina em Londres, minhas primeiras impressões da cidade voltaram todas à memória. Quando cheguei, naquele 01 de novembro chuvoso e frio, que eu pensei ser o típico da cidade, achei interessante observar que para todos os lados que eu olhasse havia... indianos! Cheguei a pensar que o avião tinha me deixado por engano em Bombaim. Com o tempo, entendi que realmente eles estão por toda parte, onde você menos espera. Sempre com uma lojinha que quebra o galho, um restaurante no meio do nada e aquele cheiro de curry no metrô.

Felizmente, eles não são os únicos. Não demorei a descobrir que o que Londres tem de mais especial é a falta de... londrinos. Os ingleses aqui já viraram minoria. Claro que o inglês é a língua predominante, mas por todos os lados, você vê franceses, espanhóis, italianos e, é claro, brasileiros. Não passamos um dia sem ouvir outra pessoa falando português, seja no metrô, seja numa loja ou num restaurante. Ou mesmo sem escutar, você se pega no metrô ao lado de um homem com a camisa da seleção brasileira e em frente a uma mulher lendo um livro em português da Zíbia Gasparetto. É a visão do inferno. (brincadeirinha xenófoba)

Outra característica forte daqui é o sotaque, claro. A gente chega crente que está a-ba-lan-do com nosso CCAA ou Brasas. Aí a pessoa te dá informação dizendo que para ir para London Bridge você precisa descer em “ulesthchapouwl”. Aí você pede para repetir. E ele repete... “uhlesthtchapowulh”. Você faz cara de desentendido e pergunta de novo, e aí consegue entender a palavra “west”. Ok, já dá para se virar. Com o tempo, claro, a gente vai se acostumando, inclusive a chamar Sprite de limonada e Catchup de molho de tomate.

E esses seis meses iniciais, onde Mina aperfeiçoou o espanhol e resolveu toda a papelada burocrática com a ajuda de nossos amigos ninjas no Brasil, eu tentava entende o porquê dos meus amigos daqui não gostarem muito de mim, já que ninguém me encontrava ou saía comigo. Mas agora que a primavera chegou (a estação, e não aquela parente nordestina retirante que resolve ir ilegal pra Europa), tudo começou a fazer sentido, já que os telefones e convites se tornaram freqüentes. É que quem não está chegando agora à cidade, não sente a menor necessidade de sair de casa quando a temperatura média é de 8 graus NEGATIVOS e a neve não dá sossego. E você se pega comemorando quando a temperatura chega a 1 positivo. No novo conceito, os 15 graus habituais do momento são um calorão.

Foi logo no início que alguns mitos também foram quebrados. A de que Londres é cara, por exemplo. De fato, transporte e moradia são caros. Mas tudo é relativo quando os salários são maiores e as oportunidades mais abundantes. Para explicar um pouco: a cidade é divida em 6 zonas, sendo a zona 1 a central e a zona 6 a mais afastada do centro. Com isso o preço do metrô varia de acordo com a zona que você utiliza. No nosso caso, moramos na zona 3, em um bairro com muito imigrantes, mas em uma casa altamente confortável e grande, só para nós dois e a dona da casa, com direito a jardim com rede e churrasqueira. Aqui existe um cartão chamado Oyster, que você pode carregar o valor que quiser, mas existem tickets semanais e mensais. No caso do semanal, pagamos 30 pounds, que vale por 7 dias, mas o cartão te dá direito a andar quantas vezes você quiser de metrô e ônibus pelas zonas 1, 2 e 3. Ou seja, não tem essa história de pagar a mais pelo ônibus integração ou pagar passagem toda vez que vai para algum lugar. Uma vez pago o bilhete semanal, o transporte é à vontade. E vale comentar que de madrugada existem ônibus noturnos de 10 em 10 minutos para todos os lugares da cidade e que a maioria dos pontos de ônibus tem um letreiro que te informa em quanto tempo o próximo chega. Isso sem contar que os pontos têm nome e no ônibus você é informado do nome de cada ponto, como no metrô (os nomes não são tipo João ou Maria, tá, gente, são nomes que se referem aos lugares, como Queen Elizabeth Hospital ou Queen Elizabeth Street ou ainda Queen Elizabeth Avenue).

Bom, um post para contar os seis meses seria impossível, então já foi válido contar sobre as primeiras impressões. Agora podemos seguir adiante e ir contando sobre as aventuras dos dois juntos. Vale mencionar aqui que eu consegui emprego em uma semana, em um restaurante muito famoso e adorado que faz parte de uma cadeia enorme. É parte africano, parte português, onde trabalham pessoas do mundo inteiro. E minha função é receber os clientes, escolher uma mesa, conversar e receber um feedback. A Mina conseguiu trabalho em 3 dias em uma tenda de comida brasileira em um mercado super antigo que faz parte de um dos lugares mais diferentes e interessantes de Londres, uma região chamada Camdem Town, que é inclusive onde mora e bebe a Amy Winehouse. Mas as particularidades de trabalho e lugares virão nos próximos posts.

E, para finalizar, um diálogo típico de Mina e Phil, de madrugada na cozinha, após beber uma garrafa de vinho:

Mina: - Quero beber mais.
Phil: - Não vai beber nada, não tem necessidade.
Mina: - Tem sim, eu quero beber. Vou beber esse rum aqui, com coca-cola, ó!
Phil: - Mina, sua alcoólatra, não vai beber rum com coca-cola nenhum!
Mina: - Vou sim! Vou beber esse rum agora.
Phil: - Pois se você beber esse rum, eu vou cozinhar um miojo para mim agora.
Mina: - Você não vai cozinhar um miojo para você a essa hora.
Phil: - Bebe o rum pra ver se não cozinho o miojo...

A noite terminou com a Mina bebendo cachaça e o Phil fazendo torrada.

domingo, 1 de novembro de 2009

Season Finale

Chegamos ao final da primeira temporada das aventuras de Mina e Phil pela Europa. Mas, como o blog, foi renovado, isso significa que a conquista do mundo está só começando. Portanto, continuem voltando ao blog e ficando de olho, porque quando vocês menos esperarem, começa a segunda e eletrizante temporada.

E para atiçar a curiosidade de todos e apetecer a leitura, como as séries de TV fazem com seus 'sneak peaks', preparem-se... a nova temporada começa numa ilha.

Ilha? Isso mesmo. Será que é deserta? Será que é habitada? Será que é romântica com a presença do francês-culto-sóbrio-ruivo? Ou será que não é nada disso?

Aguardem.

domingo, 4 de outubro de 2009

Olimpíadas

Com a disputa para ser a sede das Olimpíadas em 2016, por coincidência, Brasil e Espanha ficaram no foco do mundo todo, pela espera do resultado. Isso fez com que muita gente se perguntasse: e o Phil e a Mina, torciam para quem?

Pra começar, devemos dizer que o fato de estarmos na Espanha não significa que a gente se sinta espanhol. Pelo contrário, quanto mais a gente conhece os espanhóis, mais a gente não quer ser um. Mas... é fato que amamos a Europa, as facilidades, o estilo e a qualidade de vida europeus.

Enquanto no Rio era programada uma festa gigante na praia de Copacabana e uma expectativa louca tomou conta do país inteiro, na Espanha ninguém parecia falar muito sobre a disputa. A preocupação era mais com os assuntos do dia a dia - crise, acidente em estrada, desemprego, imigração. Ninguém comentava muito sobre a possibilidade de Madrid ser a sede.

Perto do dia do resultado, algumas notícias começaram a surgir e na véspera do anúncio os telejornais fizeram reportagens falando sobre como eram as candidatas - Chicago, Tóquio e Rio de Janeiro. Foram reportagens respeitosas e mostraram bem o que eram as cidades.

Finalmente, no dia do anúncio, a TVE espanhola transmitiu toda a cerimônia, como o Brasil também fez. Eu e Mina, alheios a tudo, passamos o dia em Alicante, resolvendo coisas de documentos, vendo um aquário em uma praça, tomando chope em uma cafeteria, vendo um filme espanhol no cinema, visitando uma livraria... esquecemos completamente que era o dia do resultado. Quando saímos do cinema e telefonei para minha mãe, ela contou a novidade: o Rio ia sediar os Olimpíadas.

À noite, no telejornal, a reportagem mostrava a alegria dos brasileiros que estavam em Madrid, sambando, bebendo cerveja, festejando com a bandeira brasileira. Espanhóis parabenizando o Brasil. Os espanhóis daqui, principalmente os mais velhos, reclamavam que Madrid "tinha a melhor estrutura, o melhor planejamento, mais segurança", etc. Mas na imprensa o que se fala é sobre a decepção do rei espanhol, que se sentiu "enganado" porque o presidente do Comitê Olímpico Internacional disse que Madrid tinha muitas chances e que a regra não-oficial de revezamento de continentes não iria influenciar na decisão. A decepção dos governantes espanhóis e dos atletas foi grande, mas em momento algum eles ofenderam o Rio ou disseram não ser merecido. Só achavam que Madrid merecia mais por ter uma candidatura "perfeita".

A verdade é que sediar as Olimpíadas era muito mais esperado e importante para o Rio do que para Madrid. Os espanhóis ficaram decepcionados, mas nem perto de como os brasileiros teriam ficado. E sem entrar em méritos de se achamos que o Rio deveria mesmo sediar ou não, devemos assumir que a nossa torcida era para... Tóquio.


sábado, 5 de setembro de 2009

Ocio español

Para tirar um pouco da teia de aranha aqui, mesmo sem muitos acontecimentos recentes, decidi fazer um post contando um pouco sobre cultura e entretenimento aqui da Espanha, para que vocês se familiarizem mais antes de virem nos visitar. E só para explicar o título: ocio, em espanhol, é "lazer".

MÚSICA

Aqui a Shakira bomba. Existe um canal espanhol no estilo da MTV chamado 40. A última vez que a Mina viu a parada dos mais pedidos, estavam cinco clipes da Shakira, um exagero completo, ainda mais quando ela faz um clipe cafona onde uiva que nem uma louca durante a música, que chama "Loba" (tem uma versão em inglês, mas aqui não toca).


Mas o hit do ano é um que eu e a Mina escutamos desde que chegamos e aprendemos a adorar. Todo mundo sabe cantar junto. É uma balada cafoninha chamada "Colgando en Tus Manos", um dueto entre os cantores Carlos Baute e Marta Sanchez (regravação de uma música solo dele). Vocês podem ver o clipe clicando aqui.

CINEMA

Os filmes aqui são mais ou menos os mesmos do Brasil, todos aqueles blockbusters americanos que enchem todas as salas. Filmes espanhóis são poucos, o último que esteve em cartaz foi o o novo do Almodovar, "Los Abrazos Rotos", que não deu muita repercussão. Alguns filmes chegam aqui antes do Brasil, outros chegam muito depois.

Mas o que realmente incomoda é o fato de todos os filmes serem dublados em espanhol, uma coisa cultural irritante. As séries e filmes que passam na televisão também são dublados. Em Madrid e Barcelona, dá para encontrar alguns cinemas com filmes legendados. Aqui perto, existem salas especiais onde você pode colocar o fone e ouvir o áudio original, mas não tem legenda.

Os problemas da indústria cinematográfica espanhola são parecidos com os do Brasil: o governo financia a maioria dos filmes, que não conseguem ser lançados sem leis de incentivo. Os cineastas reclamam que o público não prestigia o cinema nacional, o público reclama do preço do ingresso e fica uma discussão entre fazer um cinema de arte ou cinema comercial.

A propósito: o ingresso custa €5.50, mas quem tem tem o carnet joven paga €4.00. Imaginem agora a cara das pessoas quando eu conto com requintes de crueldade que o cinema no Brasil custa 18 reais. Aqui não existe meia-entrada para estudante, mas todos os europeus que tenham até 30 anos e moram na Espanha podem fazer esse carnet no banco e obter desconto em muitas coisas. Nos outros países é até 27 anos.

CELEBRIDADES

Achei muito engraçado quando descobri, mas os toureiros aqui são grandes celebridades. Existe um em especial, que não lembro o nome, que é o toureiro mais conhecido do país, por ser muito bonito. Vive aparecendo nas revistas e programas de fofoca, junto com ex-participantes do "Gran Hermano" (a versão hispânica do "Big Brother"), do "Operación Triunfo" (o "Fama" espanhol) e jogadores de futebol (principalmente Cristiano Ronaldo e Kaká). Pois é, aqui a gente também não se livra disso.

Penelope Cruz e Javier Bardem são grandes celebridades por aqui, amados e idolatrados. Todos querem saber se ela está mesmo grávida dele e uma coisa engraçada aconteceu no último Oscar: as pessoas se reuniram para assistir nos bares e como o prêmio ao qual a Penelope concorria foi o primeiro (e ela ganhou), o apresentador pediu no ar: "por favor, peço que todos continuem assistindo ao programa, mesmo com o momento esperado já ter passado".

TELEVISÃO

A programação da TV aberta é muito ruim. À tarde, tudo o que se vê são programas de fofocas sobre celebridades ou barracos com temas polêmicos. Familiar, não?! Também passam novelas e minisséries horrorosas. A RTVE, do governo, tem dinheiro e produz coisas bem-feitas, mas ainda assim os programas são bem ruins. Tem qualidade técnica, mas falta conteúdo. E exatamente no mês em que chegamos, foi aprovada a nova lei do audiovisual, que passa a proibir comerciais nas TVs públicas, o que aqui era permitido.

Os telejornais são bem diferentes dos brasileiros porque os repórteres são mais informais. Ainda que o tipo de linguagem seja o mesmo e as reportagens também sejam parecidas, algumas coisas destoam, como uma reportagem muito louca sobre as eleições, onde o repórter fazia piadas sobre a velhinha que não achava o título de eleitor, a música "Mamma Mia", do Abba, tocava como trilha sonora e a apresentadora do telejornal chorou de rir ao voltar da reportagem.

Além disso, os correspondentes usam roupas muito informais, como vestidos coloridos ou bermuda, alguns homens não fazem a barba ou têm cabelo comprido. Isso poderia ser interessante, mas eles são péssimos repórteres. Já o tipo de linguagem usada entre o apresentador do telejornal e os comentaristas é mais solta e íntima, coisa que estão começando a fazer no "Jornal Nacional" e como mais ou menos já acontece no "Jornal Hoje".

O mais interessante foi quando o âncora do principal telejornal vespertino da Espanha, Lorenzo Milá (na foto), ia deixar o cargo para ser correspondente em Washington. Ele se despediu do público e da comentarista de economia que estava com ele na bancada. Ela se despediu e começou a chorar, o que fez com que ele também chorasse dizendo "eu prometi que não ia chorar". A cena fica muito mais engraçada se vocês imaginarem o William Wack se despedindo do "Jornal da Globo" e a Miriam Leitão chorando por isso.

COMIDAS

Disso a gente já falou bastante. Tapas (petiscos), paellas e bocadillos (sanduíches) são as comidas típicas e é o que realmente todo mundo come. Os espanhóis também gostam muito de chá e bebem muita água. Até por isso a dieta mediterrânea é constantemente tida como a melhor do mundo.

DIALETOS

Além do castellano ou espanhol, que é a mesma coisa (e as pessoas brigam porque alguns dizem que castellano é só de quem é de Castilla e outros dizem que chamar o idioma de espanhol é coisa de gente inculta), existem os diversos dialetos da Espanha. O valenciano, que se asemelha ao francês, é falado aqui na Comunidade Valenciana, principalmente pelos mais velhos. Ele é praticamente igual ao catalão (apesar de eles falarem que é diferente), que é falado na Catalunha, inclusive Barcelona. Tem ainda o Vasco, do País Vasco, e o Gallego, da Galícia, que parece muito com o português de Portugal, a ponto de pensarmos que estavam falando português.

Bom, para um post qualquer até que ficou grande. Na semana que vem, esperamos receber a visita de um amigo que está fazendo intercâmbio em Valencia, então aguardem novidades. E já que encerrei falando de dialetos, uma despedida em valenciano: Segueix visitant, comentant i fins a la pròxima!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Na pizzaria, tudo acaba em água

O melhor de se estar na Europa, creio, é ganhar em euro. Não só porque cada euro vale quase três reais mas também porque a vida aqui é muito, mas muito mais barata. Um exemplo: Todo mundo sabe que a água aqui é cara. Bom, uma garrafa de água mineral, daquelas grandes, no Brasil custa em média um real. A mesma garrafa aqui, na Espanha, custa 30 centavos. Com menos do dois reais saimos do supermerdado com um pacote de seis.
Nas últimas semanas eu tive a sorte de, mesmo sem documento, ser chamada para trabalhar na Pizzaria Liberty, onde a mãe do Phil, Margarida, é gerente. Detalhe: Se um fiscal me descobre, o José, dono da Liberty, paga uma multa de 10.000 euros porque como estou trabalhando ilegalmente, ele está economizando em impostos. A idéia de me chamar foi meio que induzida pela Margarida, na época da festa de Mouros e Cristianos, quando a pizzaria bate recorde de público e o José fica desesperado procurando alguém para ajudar.


Antes de mim ele contratou uma francesa que no fim do primeiro dia, pediu para sair. Sim, o trabalho é pesado. Servir mesas não é tão fácil como parece para quem está sentadinho tomando cerveja. São muitas horas em pé, carregando peso e andando de cima para baixo. Eu adorei. Já não aguentava mais ficar em casa à toa. E, sinceramente, o trabalho é cansativo mas não é impossível. Rola um pouco de frescura por parte do povo aqui na Europa, eles não são acostumados a trabalhar muito. O índice de desemprego está alto devido à crise, mas também tem uma galera que prefere ficar no paro (o auxílio desemprego daqui) do que pegar no batente. No paro, cada trabalhador tem direito a receber por dois anos 80% daquilo que recebia antes de ser demitido. Começa com esse valor mas vai diminuindo um pouco ao longo do tempo. Por isso que aqui todo mundo só fala de crise, mas a pizzaria está sempre cheia.

Pois é, eles não estão acostumados a trabalhar muito mas têm pavor dos estrangeiros que chegam todos os dias para "tirar os seus empregos". Numa pesquisa que vimos no telejornal daqui, para os espanhóis, o pior problema do país é a presença de imigrantes. Na pizzaria, só trabalha um espanhol, o Joaquin, que nasceu e cresceu em Villajoyosa.


Todos os outros, inclusive o dono, são estrangeiros. A maioria é de países da América Latina. Sendo que, dado interessante, a cozinheira, Tati, é da Lituânia. Ela trabalhava como engenheira em uma fábrica de carros, quando o seu país era comunista. Tati afirma categoricamente que a vida de todos era muito melhor naquela época, porque tinham comida, roupa e estudo. É claro que deve ser mais satisfatório ser engenheira do que passar o dia fritando batatas. Mas, com a queda do comunismo, as fábricas foram fechadas, ela perdeu o emprego e teve que vir para outro país para conseguir criar os dois filhos.


Eu, que não tenho que alimentar filho nenhum, e estou aqui meio que de farra, acho o trabalho na pizzaria super divertido. Para mim foi só vantagem, sair de casa, fazer alguma coisa nova, praticar o espanhol e ainda ganhar uma graninha, ou granona, são 50 euros por dia de trabalho. Tenho trabalhado aos sábados e domingos (dias mais difíceis de se encontrar um fiscal trabalhando), portanto, são 100 euros por semana. Dá para comprar mais de 300 garrafas grandes de água.


quarta-feira, 29 de julho de 2009

A grande batalha

À primeira vista, parecia que teríamos mais um carnaval: um grupo de homens passou vestido de mulher e mexeu com a Mina. Tudo indicava que a tal festa dos "Moros y Cristianos" seria nada mais que um bando de gente bêbada e fantasiada se pegando. Mas não foi bem assim.

Para começar, uma informação importante sobre a Espanha que ainda não havia sido compartilhada (porque até então tivemos sorte): as pessoas não "ficam", não se "pegam". Não existe isso de, em uma festa, como carnaval, um homem jogar um papo e beijar uma mulher. O que acontece é que os espanhóis entendem que o beijo é o começo do sexo. Então, se você beija um espanhol ou espanhola, isso significa - para ele(a) - que vocês vão transar. Por isso, é normal que você conheça alguém, converse, saia outras vezes e só depois de várias vezes é que vão se beijar - porque isso significa que vão fazer sexo.

Dito isso, voltemos à festa: o objetivo das pessoas é beber para... beber. Todos ficam bêbados,
dançando, cantando e andando em grupos.
Durante a festa, que dura cinco dias, existem kabillas, que representam as tendas antigas dos mouros, cristãos ou beduínos. Cada grupo se reúne em uma tenda - e todos têm definido, desde que nascem, se são dos mouros, cristãos ou beduínos, é tradição de família. Pode-se mudar, mas é muito improvável. E o curioso é que os espanhóis passam o ano todo com preconceito contra os ditos "mouros" (pessoas provenientes de certas regiões árabes), mas durante a festa é muito mais legal ser mouro do que cristão. Nessas kabillas, há bandinhas de músicas tocando a noite inteira e você passa por experiência parecidas com a do carnaval, como encontrar o gerente do seu banco completamente bêbado e dizendo "Holaaa Philippeee, que tal, hombre?". As mais legais eram as maiores: a do rei mouro e a do rei cristão.


Durante o dia, há o desfile. É interessante, mas quem já viu carnaval no Brasil, acha tudo mais ou menos. O primeiro dia é dos cristãos, que dura uma hora e meia, e o segundo dia é dos mouros (cujo desfile é infinitamente mais bonito e nos remete imediatamente a "Aladdin"), que dura duas horas e meia. Quando acaba, todos vão para suas respectivas kabillas para jantar. E depois de algumas horas, já de madrugada, as kabillas são liberadas e distribui-se bebida de graça para todos. Cada cidadão de VillaJoyosa que participa dessa festa desembolsa, em média, mil euros, sendo que mais da metade vai em bebida (para os locais e os turistas).



Agora vocês imaginam... todas as noites, o nosso destino era a rua, onde bebíamos (a Mina mais que o Phil), andávamos e... acabava por aí. Camila, nossa amiga brasileira de Villajoyosa, nos fez companhia todas as noites. E o momento alto foi no dia em que a Mina resolveu sacanear um espanhol depois de uma ideia brilhante do Phil, escolheu um e disse, em português: "Nossa, eu te levaria para casa e te fazia todinho!". Claro que a frase originou gargalhadas dos três e aconteceu o seguinte diálogo:

Espanhol: - Oi! Não ouvi o que você falou porque está muito barulho.
Mina: - Não foi por isso. Foi porque eu falei em português.
Espanhol: - E o que você falou para mim?
Mina: - Não posso dizer, desculpa.
Espanhol: - E por quê eu fui o escolhido?
Mina: - Porque tinha que ser alguém bonito.

E foi aí... que o espanhol correu. Sim. Ele c-o-r-r-e-u. Frouxo? Não. Espanhol.

Depois de noites e noite em claro e uma banda insuportável tocando as mesmas músicas o dia todo na janela de casa, chegou a grande noite do dia 28, quando acontece a encenação do
chamado "Desembarco Moro", que só acontece em Villajoyosa. Antes de falar do evento, um pouco de história para contextualizar:

Em 1538, os cristãos estavam acampados na costa espanhola. Inesperadamente, os mouros chegaram em seus barcos, à noite, e depois de desafiados pelo rei cristão, lutaram e tomaram o
castelo, conquistando assim o território espanhol. No dia seguinte, porém, já preparados, os cristãos atacaram e reconquistaram o terrotório, que ficou sob domínio deles.

O desembarco reconstitui a conquista dos mouros. São preparados barcos que levam os espanhóis que representam os mouros com suas fantasias, enquanto os que representam os cristãos ficam em tendas armadas na praia, comendo, bebendo e observando os barcos chegarem. Tudo começa por volta das 5 da manhã, quando alguns espanhóis, que interpretam os soldados, atiram (com balas de mentira, obviamente) contra os mouros. A platéia acompanha tudo da calçada em arquibancadas.



Como tínhamos credencial de imprensa, acompanhamos tudo bem de perto, da beira do mar,
misturando-se à encenação e aos repórteres e cinegrafistas profissionais, com direito ao repórter da TVE (a TV estatal espanhola, que possui diversos canais e é a mais importante do país) perguntando ao Phil quando a verdadeira batalha aconteceu. E como todos os outros jornalistas, tínhamos que vestir a túnica branca (ou casaca) para não destoar da encenação.

Com nossas câmeras amadoras, conseguimos registrar boa parte do desembarco todo e depois o Phil fez uma edição - em um program amador também (por isso, não reparem nas imagens tremidas ou cortes bruscos de áudio) - para que vocês possam ver um pouco do que é festa. O desembarco, sim, é algo completamente diferente de tudo que já vimos e uma festa incrível que vale a pena presenciar, algo da cultura espanhola e difícil de ser entendida por quem nunca viu de perto. Confiram o vídeo:



Fotos tiradas pela Mina:

Fotos dos desfiles:

Outras cidades espanholas realizam os desfiles e as festas em outros dias. Em Villajoyosa, a festa dos mouros e cristãos acontece antes da festa da padroeira, Santa Barbara, emendando uma festa na outra e garantindo uma semana inteira de folga.

E para finalizar: fomos desafiados aqui no blog a não sermos imparciais e assumirmos uma posição entre os mouros ou cristãos. A princípio, os mouros parecem mais interessantes. Mas a ideia de um mundo dominado por árabes islâmicos não parece muito interessante também. Foi aí que o Phil decidir ficar do lado dos beduínos. Eles não têm desfile, eles não participam do desembarco... foram renegados. Portanto, Phil é beduíno desde criancinha, o que originou o diálogo:

Phil: - Vou ficar do lado dos beduínos. Muito mais legal!
Mina: - Phil... você só quer ser do contra.
Phil: - Não, tenho muito mais a ver com eles, essa coisa de ser nômade.
Mina: - Desde quando você quer ser nômade?
Phil: - Ué, eu adoraria viver em Londres, Paris, Madrid, Nova York... só que em apartamentos confortáveis, quem disse que nômade precisa viver em acampamento?
Mina: - Ok, você venceu.